REVISTA DE COMUNICAÇÃO – Ano 5, Número 20, 1989

Por que acabou

Depoimento de

Eugênio Silva

 

 

Ao longo de quase 15 anos, desde o fechamento da Empresa Gráfica “O Cruzeiro” S/A, tenho sido alvo de perguntas sobre as causas que levaram a “melhor revista da América Latina” a encerrar suas atividades.

Nem sempre respondo a contento a essas indagações, mesmo porque as causas são numerosas e remontam a um passado de muitas décadas. Falar sobre ascensão e queda da grande revista brasileira é assunto para algumas horas. No mínimo.

Nas linhas que se seguem, tentarei responder a essas perguntas, formuladas por milhares de leitores e, também, por muitos amigos e simples curiosos.

 

Ao ser convidado para integrar a equipe de fotógrafos de O Cruzeiro, em 1948, tive uma grande alegria. O convite partira do próprio Leão Gondim, diretor superintendente da empresa. O salário inicial era cinco vezes superior ao que eu recebia em Minas. Mas o que importava mesmo não era o salário e sim o fato de passar a pertencer à mais selecionada equipe de repórteres e fotógrafos do país, na ocasião. Era a glória para o fotógrafo da província.

Uma semana depois, peguei o noturno e me mandei para o Rio. Queria conhecer meus novos patrões e colegas.

Desci na Estação Pedro II e fui a pé em busca da sede da revista, na Rua do Livramento, 203, na Gamboa. O prédio era velho e sujo. Um autêntico pardieiro. De resto, tudo era da pior categoria, incluindo a rua e o bairro. Tive uma bruta decepção.

Uma escada longa e escura levava ao segundo pavimento. E era só. Instalações apertadas, escuras e sujas, divididas por biombos de meia altura. Poltronas surradas e desconfortáveis eram um convite para que os visitantes ficassem em pé. Senti-me quase perdido no meio daquela gente apressada e desconhecida que transitava na pequena sala de visitas, se é que aquela salinha infecta podia ser considerada como tal.

Depois de alguns minutos de indecisão, pedi para falar com o chefão da casa.

– O senhor quer falar com o Sr. Leão Gondim? – perguntou um sujeito com cara de poucos amigos. Timidamente, respondi que sim. O homem que eu procurava era exatamente o Sr. Leão.

Expliquei que eu era o novo fotógrafo da revista e que gostaria de falar com o chefão. Apesar disso, o cidadão mal humorado foi curto e grosso: – O melhor que o senhor faz é ficar aqui na sala e esperar a hora que o Sr. Leão passar – e acrescentou com má vontade: – O Sr. Leão é um cidadão baixinho, com cara de nortista e usa terno branco.

Várias horas se passaram. Eu continuava sentado, à espera de um Leão que não conhecia. Minha impressão era a de que todos os funcionários da revista já estavam fartos de me ver ali, imóvel e desajeitado.

No fim da tarde, o Leão apareceu. Não perdi tempo e me apresentei à fera, no seu impecável linho branco S-120, sapato de duas cores, de estatura baixa e cara de “pau-de-arara”.

– Eu sou o novo fotógrafo lá de Minas que o senhor contratou por correspondência, frisei bem. – Vim aqui para conhecer o Senhor e o pessoal da casa – expliquei meio desconsertado – e acrescentei: – Se for possível, gostaria de ganhar uma máquina fotográfica, de preferência uma Rolleiflex nova.

O novo chefe não disse nada. Limitou-se a me olhar de alto a baixo. Falou apenas – “Espere um pouco, eu já volto”, e sumiu no corredor escuro.

Longas horas se passaram... Cansado, com fome, louco por um cafezinho e nada do homem. Minha impressão era de que ele se esquecera de mim, definitivamente. Não havia mais ninguém no velho prédio, pensava.

Lá pelas oito da noite, surgiu o Leão a caminho da escada. Ao me ver àquela hora, levou um grande susto. Percebi que o chefão estava encabulado e comovido com a minha paciência, na longa espera.

– Meu filho, você ainda está aqui? – perguntou estupefato. – Amanhã cedo você terá sua máquina fotográfica. Faço questão que seja a mais moderna e a mais bem equipada que houver.

No dia seguinte, recebi a Rolleiflex prometida, totalmente equipada.

As longas horas de espera estavam compensadas. Além da máquina fotográfica, eu ganhara também o apreço e a amizade do meu novo patrão.

 

A Empresa Gráfica “O Cruzeiro” era, de fato, uma grande casa. Nas estatísticas da época, figurava entre as 20 maiores empresas do país, em faturamento, e era a primeira entre as editoras gráficas existentes em toda a América Latina. Para um repórter provinciano, ter acesso à grande empresa jornalística era motivo de justo orgulho. E eu me sentia assim.

Além de O Cruzeiro, a empresa editava as revistas A Cigarra e Detetive e mais uma dezena de publicações destinadas a um público infantil, como Bolinha, Luluzinha, Pimentinha, Fantasminha e outras do gênero, todas campeãs em tiragem. Havia ainda a Editora O Cruzeiro, que figurava entre as maiores casas editoras do Brasil.

Leão Gondim comandava seu império com mão de ferro. Da escolha das fotos à sugestão dos títulos das reportagens, sua presença era constante e, quase sempre, decisiva.

O Cruzeiro crescia a cada semana. As páginas da revista eram disputadas pelos maiores anunciantes da época. Nos primeiros dias de janeiro, todos os espaços para anúncios nas 52 edições do ano já estavam reservados ou vendidos.

O slogan que classificava O Cruzeiro como a “maior e melhor revista brasileira” não significava um chavão comercial. Era uma realidade mesmo. Talvez não fosse a melhor, mas era a maior, sem dúvida. E mais, detinha um outro título importante: era a quinta maior tiragem do mundo, dentre as revistas ecléticas como Life, Post etc.

Sexta-feira era dia de pagamento. Ao contrário da maioria das empresas da época, O Cruzeiro pagava semanalmente e em dinheiro vivo. Nesse dia, desfilavam frente ao caixa as maiores celebridades do jornalismo, literatura e das artes brasileiras. Os colaboradores só apareciam na sexta, para entregar seus trabalhos e receber. Cândido Portinari, Santa Rosa, Péricles, Millôr Fernandes, Raquel de Queiroz, Herberto Sales, José Cândido de Carvalho, Rubem Braga, Alceu Pena, Gustavo Barroso, Dinah Silveira de Queiroz, Carlos Castello Branco, Murilo Marroquim e dezenas de outros nomes famosos. Todos integrantes do grande elenco da revista.

Com a mudança para o prédio novo, construído ao lado do velho pardieiro, mudou também o estado de espírito do pessoal. O prédio era grande e imponente. No sétimo andar, ficava o imenso salão de visitas, adornado com uma dezena de enormes telas de Portinari. Uma riqueza. No mesmo andar estavam instaladas a redação, a paginação, a diretoria e a gerência.

No oitavo e nono andares, a publicidade, o arquivo, a circulação, a revisão e outros departamentos jornalísticos e administrativos. No terraço, o luxuoso salão de festas, ricamente adornado com murais de Guignard, Marcier e outros grandes pintores. O salão de festas era, às vezes, acoplado ao grande refeitório permitindo a presença de mil convidados. Em dezenas de ocasiões os dois salões foram palco de ricos banquetes, regados a uísque escocês e vinhos importados.

A mudança do velho prédio para a sede suntuosa trouxe imensos custos para a empresa. Se a despesa de manutenção da antiga sede era equivalente a dez, os custos da nova correspondiam a 1.000, no mínimo.

Para fazer funcionar o majestoso elefante de concreto e vidro, com mais de 40 mil metros de área, todas as luzes tinham de permanecer acesas. A ventilação interna simplesmente não existia e a refrigeração jamais funcionou. Resultado: a empresa dispunha da maior bateria de ventiladores do Rio de Janeiro. O gasto com energia tornou-se brutal.

A idéia do arquiteto Oscar Niemeyer de dar ao prédio a aparência de uma grande colméia, foi um fiasco. A propósito, o famoso arquiteto jamais visitou a obra, depois de concluída. Nem ao menos passava pela Rua do Livramento, para não ver tamanho disparate. Segundo Niemeyer, sua obra fora completamente adulterada... para pior.

Em dois lados do prédio não havia janelas e os outros dois eram fechados com vidros imensos, que iam do piso ao teto. Havia, ainda, o revestimento de concreto, todo furadinho, imitando uma colméia, que impedia a passagem do sol, além de ser ótimo depósito de poeira.

As oficinas funcionavam em plano vertical, isto é, do primeiro ao sexto andar, o que dificultava a operacionalidade e onerava tremendamente os custos da empresa, com o transporte de material pesado entre os andares, nos imensos elevadores.

Se é verdade que a mudança do prédio velho para o novo, deu status de “novo rico” ao pessoal da casa, não é menos verdade que esses custos acabaram por minar a vida financeira da empresa. E, mais cedo do que diretores e funcionários podiam supor, acabaram pagando um alto preço, que a falsa riqueza costuma impor aos “novos ricos”.

 

Ao longo da década dos 50, a revista se manteve em ascensão constante, graças ao bom entrosamento da equipe e pulso firme da direção. Foi a sua fase áurea. E era de se esperar que, com esse potencial humano e significativa estrutura gráfica, a revista seguisse vitoriosa por muitas décadas, cada vez maior e melhor.

Durante mais de 20 anos, desde sua fundação até os anos 50, a ascensão fora constante, sem tempo e sem fôlego para pensar no futuro. A revista crescia a cada semana, em tiragem e prestígio. E tanto cresceu – e tão desordenado foi o crescimento – que seus administradores não tiveram pernas para acompanhá-lo. A administração da casa se concentrava em Leão Gondim e Manoel Lopes de Oliveira, que era uma espécie de superintendente. No dia que esses homens se cansaram e adoeceram, a Empresa seguiu-lhes os passos e adoeceu também. Uma pena.

 

Ao lado dos grandes feitos jornalísticos, a revista cometia pecados mortais, em termos de editoria. Aliás, a palavra editoria era pouco usada. Por exemplo, reuniões de diretores e repórteres, não me recordo de nenhuma. A revista acontecia a cada semana, ao sabor dos acontecimentos. Apesar disso, crescia sempre em todos os níveis. A famosa pauta, hoje comum em qualquer pasquim do interior, consistia em uma folha dobrada, nas mãos de Accioly Neto, que manipulava as matérias da edição seguinte, ao sabor das disponibilidades

As fotos de Jean Manzon (E), parceiro de David Nasser em memoráveis reportagens, e os textos de Jorge Ferreira (D), com imagens clicadas por Henry Ballot e Eugênio Silva, ajudaram a criar, para O Cruzeiro, a mística de “maior e melhor revista da América Latina”. Na época, seus repórteres e fotógrafos ganhavam os melhores salários da imprensa brasileira, que chegavam ao dobro e até ao triplo do que a maioria dos jornais e revistas costumavam pagar. Para o jornalista, trabalhar em O Cruzeiro equivalia a um prêmio. A foto de Jean Manzon – ele está com o uniforme da Marinha francesa, à qual serviu na Segunda Guerra Mundial – é de 1942. A de Jorge Ferreira, de 1953.

 

de sua gaveta e de uma tesoura que ele manobrava com a canhota. Por sorte de Accioly, havia sempre um bom estoque de matérias que chegava à Redação, quase sempre por obra e graça dos repórteres e fotógrafos. Era um time de grandes craques, cada um chutando a seu modo. No final, a revista saía com grande sucesso editorial.

É certo também que havia exagero de alguns repórteres e redatores, em decorrência da total liberdade. David Nasser, por exemplo, mandava suas matérias diretamente para a oficina. Jamais deu bola para a chefia de redação. Daí, alguns excessos. A série de reportagens feita sobre Aída Cury, por exemplo, foi além do razoável. Encheu a paciência do leitor, apesar da campanha meritória contra os assassinos da moça. Outra série que encheu o saco do país inteiro: a história da briga de Chico Alves com Perpétua, que fora sua mulher. A série infindável durou quase um ano. O crime de Sacopã foi outro caso de duração excessiva nas páginas de O Cruzeiro.

Apesar disso, a revista possuía vasto crédito entre seus leitores cativos. A cobertura de Jacareacanga (tentativa de sublevação de alguns oficiais da Aeronáutica contra a posse de Juscelino Kubitschek), os acontecimentos que antecederam a morte de Getúlio, a série sobre a Amazônia, a entrevista de Luiz Carlos Prestes, em plena ditadura, o disco voador da Barra da Tijuca, as grandes coberturas de José Medeiros e José Leal no Nordeste, os grandes furos de David Nasser e Jean Manzon, no sobrevôo sobre os índios xavantes, os primeiros contatos de Jorge Ferreira e Henry Ballot com os índios Txucarramãe. E mais uma

Ubiratan de Lemos e Mario de Moraes (terceiro e quarto a partir da esquerda) fotografados “a bordo” do caminhão “pau-de-arara” em que viajaram, travestidos de retirantes, de Salgueiro, em Pernambuco, a Caxias, no Rio de Janeiro, na companhia de 103 retirantes autênticos, incluindo crianças. A “façanha”, publicada em O Cruzeiro – escapou por pouco de morrer no arquivo da revista – com o título “Os paus-de-arara, uma tragédia brasileira”, valeu à dupla o primeiro Prêmio Esso de Reportagem (1955).

centena de grandes reportagens.

Com a criação do Prêmio Esso, O Cruzeiro foi a primeira a ganhar o cobiçado troféu, com a reportagem focalizando a dramática retirada dos nordestinos. A matéria foi assinada por Mario de Moraes e Ubiratan de Lemos. Pouco depois, outro Prêmio Esso cai nas mãos de outros dois repórteres da revista, José Franco e José Nicolau, com uma reportagem sobre o desaparecimento de uma cidade no sul de Minas, Guapé, inundada pelas águas da Represa de Furnas.

Reportagens, entrevistas com as maiores personalidades do mundo eram constantes nas páginas da revista, que mantinha correspondentes nas principais cidades do país e do mundo.

Na opinião do grande cartunista Borjalo, O Cruzeiro foi, no seu tempo, mais importante e mais poderoso do que é hoje a TV Globo, em termos de penetração e prestígio. E foi mesmo.

 

Uma das reportagens de maior sucesso ao longo da existência de O Cruzeiro foi, sem dúvida, a seqüência de fotografias mostrando um disco voador na Barra da Tijuca. O Cruzeiro deitou e rolou em cima do grande feito do velho Keffel.

A repercussão da reportagem foi espetacular. Ed Keffel e João Martins passaram a ser as grandes estrelas da constelação de O Cruzeiro. Ambos foram alvos da atenção da imprensa mundial e convocados para centenas de conferências e demonstrações sobre o grande feito jornalístico.

Internamente, o disco voador da dupla Keffel-Martins não passava de um truque.

De minha parte, acreditava no disco, menos pelo disco em si, mas pelo crédito e amizade que me ligavam aos autores do grande feito. O pessoal da redação não pensava assim e alinhava vários argumentos que colocavam em xeque a aparição do disco na Barra da Tijuca. E os grupos se formavam na discussão interminável: verdadeira ou mentirosa a matéria sobre os discos voadores?

Por outro lado, é justo assinalar a forte dose de despeito de muitos que malhavam a grande façanha dos nossos colegas.

Segundo um grupo de repórteres do qual fazia parte David Nasser, Flávio Damm, Henry Ballot, José Medeiros, Arlindo Silva, Jorge Ferreira e muitos outros, o disco da Barra não passava de uma farsa e explicavam o porquê:

– Ed Keffel e João Martins teriam saído da redação para executarem uma reportagem na Barra da Tijuca, onde fotografariam casais de namorados se beijando etc. No entanto, Keffel e Martins já eram, na época, duas grandes estrelas do jornalismo brasileiro e não topariam fotografar e escrever uma matéria destituída de tão pouca importância como aquela, ou seja, retratar namorados na Barra, missão mais apropriada para principiantes e focas da redação.

– Keffel e Martins jamais trabalharam juntos, em reportagens, anteriormente. O alemão foi e é um grande técnico em fotografia e executava seu trabalho quase sempre sozinho. João Martins, engenheiro baiano, fotografava e escrevia suas reportagens, sem nunca ter parceiro. A exceção só ocorria nas coberturas coletivas de carnaval, futebol, ou coisas do gênero. Daí, a estranheza do pessoal do contra, formar-se a dupla Keffel-Martins para uma reportagem tão insignificante.          

– Martins e Keffel jamais usaram seus carros particulares nas coberturas que faziam para a revista. Sempre usavam as camionetes da empresa. No entanto, naquela manhã, usaram o carro particular de Martins. “Seria para evitar testemunhas, no caso, o motorista da camionete?” – indagava a turma do contra.

– Foram operadas pelo Keffel oito fotos, com uma Rolleiflex. As primeiras três fotos focalizavam casais de namorados em cenas amorosas, operadas na sombra com velocidade baixa, na faixa de 1/100 de segundos, segundo declaração de Keffel, na época. A quarta foto do filme e as que se seguiram eram do disco voador e foram operadas com velocidade de 1/500 de segundo, ainda de acordo com Ed Keffel. Nesse ponto, existe uma grande dúvida, porque a Rolleiflex dessa época não permitia que se mudasse a velocidade, depois de ter sido rodado o filme, sem a inutilização de uma foto intermediária. Na seqüência de fotos do filme operado pelo Keffel, não se perdeu nenhuma. Daí, a dúvida da turma do contra: – “O velho Keffel se enganou ou mentiu?”

– A embaixada americana pediu à direção de O Cruzeiro que lhe cedesse a coleção dos negativos para um exame minucioso nos laboratórios militares americanos. Os negativos foram entregues à embaixada americana, no Rio, e posteriormente remetidos aos Estados Unidos. Menos de duas semanas depois, os filmes foram devolvidos à revista, sem qualquer comentário.

– Ed Keffel, considerado na época o melhor técnico em fotografia, entre os melhores que passaram pela revista O Cruzeiro, foi responsável pela instalação do laboratório fotográfico da revista, tendo participado do projeto de fabricação de todo equipamento, na Alemanha.

Segundo versões correntes na redação, o alemão Keffel realizou um filme de curta metragem em sua terra, logo após a Primeira Grande Guerra. Nesse filme, Keffel exibiu toda sua técnica e criatividade, fazendo truques fotográficos mirabolantes. Por exemplo, promoveu uma autêntica revoada de estátuas e grandes monumentos germânicos sob o céu da Alemanha. Esse filme teria feito relativo sucesso na ocasião, especialmente graças aos efeitos especiais criados pelo genial fotógrafo.

Não vi o filme, nem tive confirmação sobre sua existência. O velho Keffel jamais afirmou ou negou sua participação nesse documentário.

Para encerrar o assunto disco voador, quero acrescentar apenas o seguinte: certa vez, participamos juntos da cobertura da viagem de JK a Portugal. Ficamos hospedados no mesmo apartamento. Depois de algumas doses de vinho, em plena madrugada, tive uma longa conversa com o meu bom amigo Ed Keffel, especialmente sobre o seu famoso disco. Alinhei todas as dúvidas que acabei de enumerar, que colocavam em xeque a autenticidade do trabalho dele e de João Martins. Durante toda a conversa, o alemão apenas ouvia. Às vezes ria, sem confirmar, responder, ou desmentir minhas indagações. Depois de algum tempo, pediu licença e foi dormir. E nunca mais voltamos ao assunto. Isto aconteceu há 29 anos.

 

Martinho de Luna Alencar é do primeiro time de condôminos associados e tesoureiro perpétuo da organização. Com dinheiro ou sem dinheiro, Martinho atravessou meio século com o “caixa alta” dos Diários Associados.

Quando alguém procurava Chateaubriand para tomar-lhe algum dinheiro, recebia como resposta o chavão de sempre: – Procure o Martinho que ele dá um jeito.

Embalado por essa lenda, certa vez procurei o velho cearense em busca de algum reforço para o caixa da sucursal da revista, em Minas.

Martinho me recebeu com o maior sorriso. Mas só ficou nisso.

– Meu filho, não tenho um centavo na tesouraria. Estamos falidos.

Para ilustrar sua negativa, me pegou pelo braço, me fez sentar a seu lado e, abrindo uma gaveta, tirou de lá vários pacotes de recibos emitidos pela Sumoc. Eram centenas e centenas de recibos, correspondentes a pagamentos de quadros importados por Chateaubriand para o Museu de Arte de São Paulo. Não me recordo de nenhum recibo inferior a 100 mil dólares. A maioria era de 200, 400 e até 500 mil dólares. Pelo volume de recibos e as cifras de cada um, minha impressão é de que na gaveta do Martinho estavam sepultadas várias dezenas de milhões de dólares, pagos por Assis Chateaubriand, através de órgãos da cadeia associada. Uma grande fortuna.

– Se eu tivesse hoje a metade do dinheiro correspondente a esses recibos, eu salvaria O Cruzeiro, O Jornal e todas as demais empresas associadas que estão em dificuldade – lamentou Martinho.

Hoje, quando alguém me fala do Museu de Arte de São Paulo e da imensa riqueza que representa sua grande coleção de arte, a maior do Brasil e uma das maiores do mundo, eu me pergunto – será que valeu a pena?

Um sonho de Chateaubriand plenamente realizado, que lhe deu alguns sobressaltos e grandes alegrias, mas que custou às suas empresas algo mais que elas poderiam suportar. Pode parecer um exagero, mas, ao admirar os valiosíssimos quadros do museu paulista, me vem a idéia de que boa parte dos Associados está pendurada nas paredes do Masp. Só que ninguém vê...

Num almoço em Ipatinga, há muitos anos, Adolpho Bloch anunciava profético: – Dentro de pouco tempo, as revistas ecléticas, tipo Manchete e O Cruzeiro desaparecerão do mercado.

Bloch se louvava nas informações correntes de que as revistas Life, Saturday Evening Post, Paris-Match e outras com tiragens acima de cinco milhões de exemplares semanais estavam com seus dias contados.

A profecia de Adolpho acabou dando certo. As grandes revistas ecléticas faliram. Ele só não acertou na falência de sua própria revista (*). É explicável: santo de casa não faz milagre, nem acerta em profecias caseiras. Além disso, ele ainda não contava com a ajuda de um futuro aliado, que se transformou no seu maior amigo: Juscelino Kubitschek.

Mas essa é outra história...

 

Os Associados estavam presentes em todos os Estados brasileiros, com seus jornais, rádios e tevês. Para Chateaubriand isso não bastava. Era necessário ir além das fronteiras do Brasil e conquistar novas áreas na América Latina. Daí a idéia do lançamento de O Cruzeiro em língua espanhola, que seria uma publicação latino-americana para os latinos-americanos. Ao contrário da Life internacional, uma revista americana, fortemente apoiada pelo governo dos EUA e dirigida ao público de língua espanhola, em toda América.

Mas o lançamento da revista foi um grande fracasso financeiro. O prejuízo foi total.

A direção de O Cruzeiro se louvou em informações levianas e apressadas do governo de cobrir os custos dessa edição com anúncios de bancos oficiais, Institutos do Café, do Mate, do Açúcar, Petrobras etc., o que jamais ocorreu. Da primeira à última edição de O Cruzeiro internacional não foi publicada, ao menos, meia página de anúncio de qualquer órgão governamental.

As informações que corriam na revista, antes de seu lançamento, davam conta do empenho pessoal do presidente Juscelino Kubitschek para o maior sucesso da iniciativa da empresa associada. Na verdade, o presidente jamais deu provas de qualquer apreço, não tendo nem mesmo comparecido à festa de lançamento da malsinada edição espanhola, apesar do convite pessoal feito por Leão Gondim. Na hora da recepção, que foi no salão nobre de O Cruzeiro, JK pegou um avião para Brasília, em companhia do jornalista francês Henri Cartier-Bresson, sem ter, ao menos, a delicadeza de mandar um telegrama de felicitações.

Durante mais de dois anos a empresa bancou sozinha um prejuízo astronômico. Além do abandono total por parte do governo, sofreu ainda forte boicote das agências de publicidade internacionais, insufladas pelo Departamento de Estado Americano e, especialmente, pelo grupo Time-Life.

Fui testemunha ocular do grande fiasco. Participei com Jorge Ferreira do lançamento de O Cruzeiro internacional em toda América Latina. Viajamos durante cinco meses, cidade por cidade, do México até Assunção.

A cada 15 dias entregávamos mais de 300 mil exemplares nas bancas de jornaleiros de todos os países de língua espanhola da América do Sul, Central e do Norte. Um grande esforço que redundou num imenso fracasso. Com exceção apenas de Montevidéu e Buenos Aires, cujos repartes eram enviados por caminhão, os demais países recebiam a revista por avião. O preço do exemplar era de 50 centavos de dólar nas bancas, restando líquido para a empresa apenas 25 centavos, ficando ainda o encalhe por nossa conta, mais o transporte por via aérea.

Na opinião de vários colegas que participaram desse trabalho, o lançamento de O Cruzeiro internacional foi uma das causas da derrocada da Empresa associada. Uma aventura plena de mentiras e falsidades, por parte do governo e de próprios elementos da casa e que custou aos já combalidos cofres de O Cruzeiro algumas dezenas de milhões de dólares.

O grande sonho de Assis Chateaubriand de levar sua revista para além das fronteiras do Brasil, se transformou num grande pesadelo e apressou o fechamento de boa parte da cadeia associada, com especial destaque para aquela que foi, durante décadas, “a maior e melhor revista da América Latina”.

 

Espero ter respondido às indagações que me fazem sobre as causas que motivaram o desaparecimento de O Cruzeiro.

E, apesar de todas as vicissitudes, dos contratempos, das lutas, eu seria capaz de subir novamente as escadarias do velho pardieiro da Rua do Livramento, 203, na Gamboa, para pedir ao meu amigo Leão Gondim um emprego de fotógrafo. Tenho certeza de que ele (se fosse vivo) me daria.

Acho que valeu a pena.

 

 

(*) NOTA DO EDITOR – Também acertou. Bloch Editores, proprietária da revista Manchete, teve sua falência decretada em agosto de 2000. Adolpho já tinha morrido; morreu em novembro de 1995.

 

Eugênio Silva, repórter fotográfico, trabalhou no Estado de Minas, jornal da cadeia associada, e foi por muitos anos diretor da sucursal de O Cruzeiro em Belo Horizonte. Em 1989, quando escreveu “Por que ‘O Cruzeiro’ acabou”, era assessor do Departamento de Comunicação da Rádio Inconfidência.

 

 

 

 

 

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